sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Prashant Miranda
Havia um cheiro ácido naqueles rostos cinza, com ar fétido.
Um lugar pejado de papéis, manuseados por quem não sabe o sabor da vida.
Uma coisa de cada vez, gritou uma mulher de carnes moles e olhar demente.
Respirou fundo.
Lá fora chovia e o ar sentia-se outro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bon Iver

Não havia ardósia, não havia papel, que emocionasse a cor.
Sentia frémitos de dor, os sentidos despertos.
O tempo e as memórias magoavam.
Aprendeu a andar e por fim, só se deslocava agarrada à cor,
sem convicção.
A irrealidade de que se rodeava dava-lhe alento; e, quando se levantava, levava consigo o torpor que lhe amortecia os sentidos.
Era sempre assim.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Desceu lentamente, a pensar nos filhos, enquanto sorvia o ar, e olhava pelos cães que a seguiam.
O coração voltava a bater, sem pressa.
Tinha estado com eles. Soube-lhe bem a ternura,
a disponibilidade, o amor.
Sentiu gratidão, este Natal.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

A casa

Era uma vez uma casa que tinha Sol lá dentro, chamava o sonho e afugentava o medo.
A casa fechou as portas e o seu poder desapareceu.
Corria um dia de chuva, quando as portas se abriram outra vez e as folhas acamadas foram deitadas longe; as torneiras voltaram a funcionar e as fechaduras oleadas entornavam sorrisos para dentro de casa, onde as panelas entonteciam de cheiros tépidos, e a tua voz soava tão bem.
Foi perto do Natal que isto aconteceu e ela dizia que a Primavera estava a chegar.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Cat Power

Whitfield Lovell

Whitfield Lovell, nasceu no Bronx há 59 anos e recria a vivência dos negros, nos Estados Unidos, entre o fim da Guerra Civil e o inicio do movimento em defesa dos direitos humanos.
Páginas que o olhar folheia.
Pinta sobre tábuas, que vai buscar a construções antigas, figuras à escala humana, a partir de fotografias e postais da época, que rodeia por objectos do quotidiano.

Aakash Nihalani

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Wolf Khan

Espinho, 1973
Havia uma faculdade que lhe era peculiar; alcançar o que se propunha.
A idade traz recordações de muitos anos e as amizades da adolescência fazem parte desse universo.
Sentia crescer dentro de si a pulsão pelo reencontro com esse seu mundo; era quase vital, fazia parte do seu percurso.
Começou por entrar em contacto com o colégio de freiras onde tinha estudado, que obviamente a mandaram às urtigas, remetendo-se a um silêncio confrangedor, que nem as suas insistências demoveram.
Lembrava-se de nomes, mas não o suficiente, para os localizar de tão longe; até que, por engenhos que a vontade determina, conseguiu, e foi com emoção que ouviu os sons das vozes que já não se lembrava, habitados pelas imagens que guardava daquela época.
Sentia-se com os dezoitos anos que ainda lhe pertenciam.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sigur Ros

No sonho há uma linha de dor que o vento não dissipa.
Procurava um abrigo
onde o vento entrasse e levasse a dor que toldava o sonho.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Sem pressa

Sem pressa, entregou-se à vida.
Por caminhos de pedra, resgatou o sossego que o tempo ímpar lhe concedia.
Sem pressa....,

Alex Katz

Bundi

Chegar a Bundi à noite com o Baba, tinha sido um oásis para o olhar já entumecido por cores e rostos acolhedores; pela pedra do Rajastão.
O haveli onde tinha ficado, prolongou essa sensação de sonho já vivido.
Lembrava-se do terraço, da sensação de estar em sítio nenhum e de, no entanto, sentir que podia pertencer àquele lugar, onde havia macacos que entravam pela cozinha e roubavam comida, e a respiração se soltava.
Estava debruçado sobre um lago decadente, renovado pela modernidade de um sikh. Os empregados, rapazes que ia buscar ao campo e ensinava a trabalhar por meia dúzia de rupias, não tinham direito a férias. Dois dias por ano, para irem à terra, a casas que já não reconheciam.
A justiça social tem vários rostos, mas, aqui, tinha sentido correcção entre estas pessoas.
A descida das ruas até ao mercado, ladeadas por casas sombreadas por azuis e brancos; pedras seculares trabalhadas por mãos que sabiam, tinha sido uma luxúria para os sentidos.
O tempo parou e não queria sair daquele lugar onde os caminhos a abraçavam e o olhar se dissolvia.
O mercado, as cores os rostos a miséria num lugar que a reconhece sem a escorraçar, foi apaziguante.
Finalmente, a cor.

A chegada

Não via nada.
Saiu por aquela porta e sorveu cores e cheiros que não conhecia.
Num desconforto, seguiu pelas ruas sujas e cinzentas onde a verdura não sobressaia.
Uma profusão de sentimentos enquanto o rickshaw se embrenhava pela cidade.
Primeiro foi-se apercebendo das pessoas. Estendidas pelo chão, confundiam-se com macacos e cães que se alinhavam nos muros decadentes. Pedaços do mesmo lixo que enchia a cidade.
De manhã, na cobertura da pensão, avistavam-se casas de cimento, e paredes de tijolo, muitas delas, esquecidas da cor, adensadas pelo ar pesado.
Não havia nada para os sentidos adormecidos, a não ser a escuridão e miséria que avistava;
não sabia nada.
Faltava a cor que a claridade devolve aos objectos, o ar que nos permite sorver os sons.
Delhi pairava num deserto de cor, submersa pela miséria decadente.